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Escrito por Carlos Ventura
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Quarta, 02 Julho 2008 17:35 |
in revista Natural BeijaFlor 2006 julho Macrobiótica
A macrobiótica é um movimento que passou a
ser muito conhecido na América e em alguns países da Europa nos anos sessenta.
Em Portugal só teve o seu zénite na década de setenta, após o 25 de Abril. Já
passaram portanto dezenas de anos desde que a macrobiótica passou a influenciar
um número incontável de pessoas em todo o mundo no que respeita às respectivas
opções alimentares, mas este movimento continua a ser frequentemente referida
como uma tendência muito esotérica do vegetarianismo. Ora isto é complicar uma
realidade muito mais simples. A macrobiótica começa por ser - desde sempre e ainda
hoje na sua realidade mais concreta, imediata e praticada - a dieta tradicional
japonesa. Devido à sua condição insular, o Japão desenvolveu uma cultura muito
específica nas mais variadas vertentes. Características das suas ilhas como a
de serem muito povoadas, terem solo vulcânico e muito mineralizado criaram condições,
nomeadamente alimentares, para uma dieta extremamente organizada e criativa com
ingredientes muito simples e locais. No anos noventa do século XIX, o fundador
da macrobiótica fez um trabalho precursor no espírito e nos resultados, de
grande profundidade a nível do estudo e das consequências sociais, tendo
adquirido um relevo na sociedade japonesa de então que ainda actualmente se
revela na existência da macrobiótica, que continua presente no Japão mas agora também
nos cinco continentes. Aquele estudo
consistiu em recuperar a coerência da dieta tradicional japonesa, valorizando
os seus ingredientes, nomeadamente os fermentados de soja, as proteínas
vegetais, as algas e o arroz integral. Esta afirmação foi contra-corrente, já
que a modernização do Japão levava este país a olhar com admiração para o
Ocidente, copiando os conceitos ocidentais que preconizavam a
indispensabilidade do consumo da carne e do leite e desvalorizavam o papel dos alimentos
vegetais e das fibras alimentares. A inspiração, a coragem e a
investigação que fizeram nascer a
macrobiótica nos fins do século XIX só tiveram equivalente no Ocidente muito
depois, quando, principalmente nos anos setenta do século XX, num verdadeiro
trabalho de arqueologia social e histórica, investigadores americanos
redescobriram o que passou a ser conhecido como dieta mediterrânica,
atribuindo-lhe qualidades para a saúde e apontando-a como a bússola e a âncora
da estabilidade e da simplicidade alimentar, por oposição às derivas da
alimentação moderna, industrializada, artificial, incoerente, doentia.
É claro que entre as duas dietas há
todo um contexto geofísico diverso. E é também evidente que a macrobiótica está
sustentada em pilares filosóficos ancestrais que entroncam na filosofia
oriental que melhor seria encarar como uma cosmogonia, fertilizada no budismo e
no shintoismo. E todos estamos de acordo em que esta sustentação faz da
macrobiótica muito mais do que uma dieta, mesmo que antiga e estruturada. Mas,
e volto ao princípio deste artigo, no dia-a-dia e no concreto, ela é,
basicamente, uma dieta. E sendo uma dieta, a sua coluna vertebral é a dieta
tradicional japonesa. Quem não entende este dado simples nunca perceberá o que
é a macrobiótica. É ele que explica o lugar do arroz integral, o lugar das
algas, o lugar do misô, do shoyu e do tamari, do tofu, do peixe, do sal, do
gengibre, da pouca fruta, do chá de três anos e de outros chás como o de raiz
de lótus, da forma de cozinhar, dos cortes dos vegetais, de métodos de cozinha
como o nishime, do nituke, do salteado rápido, da decoração, da estética, do
uso de instrumentos em bambu e dos pauzinhos... Muito se tem falado, desde há
dezenas de anos, em ocidentalizar a macrobiótica, em adaptá-la a cada país em
que ela se pratica. Isso nunca foi conseguido. Mas em todos os países, os
praticantes têm introduzido ingredientes e receitas locais. Em Portugal, por
exemplo, introduziu-se o arroz doce, o arroz de grelos, a aletria; da Itália
espalhou-se pela macrobiótica ocidental toda a variedade de receitas com massas
e as próprias massas italianas, que são diferentes das japonesas, a pizza; ao
Médio Oriente a macrobiótica foi buscar o cuscus e o bulgur e à tradição
europeia o pão. Estes exemplos ilustram bem como as mais variadas tradições
alimentares podem contribuir para enriquecer as opções de ingredientes e
receitas macrobióticas. A macrobiótica sempre preconizou - principalmente com
Oshawa, o mestre que impulsionou a expansão da macrobiótica para fora do Japão
- o uso de ingredientes locais, mas o núcleo central de ingredientes
(japoneses) e métodos (japoneses) mantém-se. Esta dialéctica é inerente ao
encanto da macrobiótica. Este termo - macrobiótica - foi encontrado por Oshawa
para designar a macrobiótica no Ocidente. No Japão, este movimento chama-se "a
via da alimentação". É uma prática interna, de auto-conhecimento, de auto-regeneração
e aperfeiçoamento... para quem se envolver de maneira mais profunda com esta
experiência e este estudo. Mas em qualquer caso, com qualquer pessoa, coma ela
o que comer, cada vez que ingerir seja que alimento for, esse alimento estará a
transformar essa pessoa. Se ela estiver consciente desse processo, tanto
melhor. A macrobiótica é um método valioso para quem se envolver neste caminho.
Mas mesmo que o indivíduo não esteja consciente do processo que é a simbiose e
a alquimia do alimento e do organismo humano, o alimento operará à mesma a sua
função. Com o indivíduo e apesar do indivíduo.
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