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Malta – Terra de pedras
e alcaparras
Malta é hoje um pequeno estado integrado na União Europeia,
com apenas 316 km2 (2,5 vezes o concelho de Alcochete). Todavia, a sua
população é de 400 mil habitantes, acrescendo outro tanto de população
flutuante (turistas), o que configura uma das mais altas densidades
demográficas do mundo.
Fundamentalmente são duas ilhas que compõem este país,
situado no centro do Mediterrâneo – Malta, propriamente dita, e Gozo. Tem mais
uns rochedos emersos e uma ampla zona marítima exclusiva.
A descrição deste minúsculo estado poderia obedecer a um
roteiro histórico. Malta possui testemunhos civilizacionais desde há 7 mil anos
e foi gerida por fenícios, cartagineses, gregos, romanos, bizantinos, árabes,
normandos, aragoneses, espanhóis, vaticanos (através de ordens militares
religiosas), franceses e ingleses e, todos eles, deixaram marcas profundas.
Ou então, poderíamos optar por uma análise linguística,
estudando a língua maltesa que parece ser uma mistura de árabe egípcio e de
idiomas itálicos.
Também não seria nada despiciendo, investigar os singulares
aspectos geográficos e a origem geológica destes territórios alcalinos,
constituídos basicamente por um carbonato de cálcio macio que os ingleses
chamam de limestone, ideal para
construir robustas edificações.
Outra vertente importante seria a do aspecto religioso. Quem
já viajou pelos caminhos de São Paulo em terras gregas e turcas, deveria vir a
Malta para completar a digressão. Consta-se que o apóstolo, ao dirigir-se a
Roma, naufragou junto de duas pequenas ilhotas que hoje se chamam ilhas de São Paulo e que, curiosamente,
ficavam em frente do “resort” onde nos encontrávamos hospedados. Diz a tradição
e contam os actos dos apóstolos que o santo permaneceu três meses em Malta,
fazendo milagres e implementando o cristianismo que hoje é flagrante nesta
região predominantemente católica. Nunca vimos uma nação com tantas e tão
magnificentes igrejas e capelas. De resto, esta terra paulina é-o também pela
toponímia: baía de São Paulo, ilhas de São Paulo, catacumbas de São Paulo,
gruta de São Paulo, igrejas de São Paulo, hotéis de São Paulo, etc.
A arte constituiria outro roteiro possível, desde a curiosa
arte megalítica até à sumptuosa arquitectura da ordem militar que governou
Malta por mais de dois séculos. De referir que os grãos-mestres eram de várias
nacionalidades: italianos, espanhóis, franceses, alemães, portugueses. Não se
espantem! A presença portuguesa é notada especialmente pelos palácios e
monumentos erigidos no tempo do grão-mestre António Manuel de Vilhena, com
destaque para o teatro de ópera Manoel, em Valletta, o palácio da Medina de
Rabat e a fortaleza Manoel.
Um hipotético estudo da evolução militar teria sempre que
contar com Malta, terra que ao longo das eras foi cenário das mais importantes
estratégias de guerra ao nível regional e mundial. Com efeito, Malta pouco
produz sob o ponto de vista agrícola ou industrial. A sua produção principal
tem sido a guerra e o protagonismo nos conflitos, sob o mando das sucessivas
potências.
Enfim, nessa escassa semana que permanecemos neste território
charneira entre a Europa e a África, preferi dar a primazia à contemplação da
flora, consciente de que ela abre também importantes pistas para a compreensão
do universo.
Aqui a vegetação é a típica dos climas de verão seco,
invernos temperados e solos de pH elevado. Encontram-se por todo o lado, em
estado selvagem, os funchos, as malvas de flor roxa (que mais parecem arbustos,
de tão altas), os crisântemos amarelos (mas não os coroados de branco e
amarelo, como temos em Portugal), as calêndulas, as centáureas, os senécios, os
cardos, as borragens, os rícinos, os acantos, as canas-freixas, …
Junto aos inúmeros fortes erigidos por toda a costa,
bordejada por pequenas enseadas, golfos e baías, podemos ver densas moitas de
pepino-de-são-gregório (Ecballium
elaterium), confirmando, mais uma vez, que esta planta adora viver ao pé
dos castelos e fortalezas. Notámos, no entanto, que estes
pepinos-de-são-gregório ostentam frutos bem maiores dos que existem entre nós.
Mas o que mais me surpreendeu foi encontrar imensas alcaparras (Capparis rupestris) providas de lindas
flores. Tive oportunidade de colher alguns botões florais a que juntei vinagre,
a fim de confeccionar o célebre aperitivo (hei de redigir um texto específico
sobre esta curiosíssima planta mediterrânica).
No litoral abundam as Tamarix
africana (tamargueiras), as Agave
americana (piteiras), as halófitas, com destaque para as salicórnias e
diversas plantas suculentas que sobrevivem com escassa água doce.
Os malteses utilizam, obviamente, as pedras, que dispõem em
abundância, para separar as suas pequenas courelas de solo arável, mas em
diversas propriedades, colocam também a Opuntia
ficus-indica (figueiras-da-índia). Os respectivos frutos são aqui muito
valorizados, servindo para preparar um apreciado licor rosado. Os campos
cultivados, para além de algumas vinhas de reduzida dimensão, produzem
essencialmente hortícolas: batatas, cebolas, favas, cenouras, ervilhas, couves,
alcachofras. Nas imediações da cidade de Mosta são visíveis alguns cereais:
trigo e aveia.
Tem fama o Festival do Morango (Festa Frawli) que se realiza
todos os anos, no mês de Abril, em Mgarr (atenção: o “g” tem uma pontinha em
cima, pelo que se lê “mejar”). Os morangos, criados no, provavelmente, mais
fértil vale da ilha, possuem aqui um sabor especial. O festival inclui a venda
dos frutos frescos, compotas, bolos, batidos e gelados em que o morango surge
como principal ingrediente. Das guloseimas locais, anote-se a doçaria com figos,
as compotas de alfarroba e os “nogats” de amêndoa.
No que respeita ao arvoredo, que é reduzido, existem
oliveiras, figueiras, alfarrobeiras, amendoeiras, pinheiros de aleppo (Pinus halepensis), Quercus ilex e uma cupressácea endémica, protegida por lei, que é a
Tetraclinis articulata. Com
preocupação, nota-se o alastramento de eucaliptos, sempre inconvenientes em
solos com pouca água e de ailantos (Ailanthus
altissima), os quais proliferam muito rapidamente, invadindo áreas
protegidas e ficando completamente fora de controlo.
Falando em áreas protegidas, não podemos deixar de referir
que visitámos, ainda que por breve tempo, a região da Costa Dourada, onde se
encontra Ghajn Tuffieha, cuja área
está incluída na Rede Natura 2000. Aqui encontram-se algumas plantas raras,
como asphodelus, espartas e fragonias.
Na pequena ilha de Gozo, com maior quantidade de terreno
argiloso, pudemos observar uma vegetação mais desenvolvida e terrenos mais
propícios para a agricultura. Anotámos bananeiras e duas subespécies herbáceas
endémicas, avistadas na citadela de Victoria: “Linaria pseudolaxiflora” e “Chamomilla
aurea”. Verificámos também que as “bocas de lobo” (Antirrhinum siculum) são de cor branca raiada de amarelo, enquanto
na ilha de Malta, elas (Antirrhinum tortuosum)
são predominantemente de cor vermelha ou roxa.
Não poderia terminar esta leve dissertação botânica sem
referir a visita a San Anton Gardens, talvez o mais importante jardim
botânico de Malta. Fica agregado ao palácio presidencial e foi implantado em
1623 pelo grão-mestre francês, Antoine de Paule. Era domingo e havia inusitada
multidão passeando no jardim. Mais tarde apercebi-me de que as pessoas tinham
ido, sobretudo, apreciar a exposição e venda de galináceos e coelhos,
ciclicamente apresentados naquele aprazível espaço. De árvores, saliento o bem
cuidado laranjal (melhor dizendo, “citrinal”, já que havia também outros
citrinos) e espécies ornamentais como a Sophora
japonica, a Tegoma smifri, a Robinia sasque rouge, a Livistonia chinensis, a Tipuana tipu, a Ceiba speciosa, a Latania
barbonica e demais espécies de palmeiras e Ficus tropicais. Num cantinho, em razoável estado vegetativo,
encontrei um exemplar do nosso Quercus
suber (sobreiro), árvore que ali e na maior parte do mundo, constitui uma
raridade botânica.
E eis, em larguíssimos traços, o que mais me sensibilizou
nestas terras mediterrânicas de pedras e alcaparras.
Maio de 2009
Miguel Boieiro
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