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Macela-real
Trata-se de uma planta que conheço bem e até é uma das minhas
preferidas, mais à frente explicarei a razão. O termo “macela-real” foi-me transmitido há muitas décadas por alguém que se
sumiu da minha memória. Em vão, tenho procurado este nome nos compêndios e
tratados de botânica. A “Achillea
ageratum L.”, pois é dela que se trata, aparece com as seguintes
designações populares no livrinho de Fátima Rocha, “Nomes Vulgares de Algumas
Infestantes”, editado em 1979, pela então Direcção Geral de Protecção de
Produção Agrária, do Ministério da Agricultura: agerato, erva-copada-de-são-joão, eupatório-de-mesué,
macela-de-são-joão e macela-francesa. Em “Plantas e Usos Medicinais
Populares de Aljezur, Lagos e Vila do Bispo”, aparece como “marcela-mourisca”. José Gomes Pedro, nas
“Flores da Arrábida”, insiste em “macela-de-são-joão”.
Entre diversificados nomes, os espanhóis também a apelidam de artemisia-real. Como se verifica, as
designações populares variam com frequência, dificultando a correcta identificação
da flora. O mais seguro é determinar nomenclaturas científicas, embora isso
também não seja fácil. Quanto à nossa plantinha, irei continuar a chamar-lhe
macela-real, porque a considero, justamente, a rainha das macelas.
É erva vivaz de base lenhosa que pertence à família das
compostas, ou asteráceas, erecta, com caules múltiplos e cheiro intenso, chegando
a atingir 80 cm
de altura. As folhas são alternas, serradas, oblongas ou lanceoladas, de
pecíolo curto. As pequenas flores, hermafroditas e polinizadas por insectos,
formam corimbos com 15 ou mais capítulos, de cor amarela. Os frutos são
aquénios. Distribui-se com mais frequência no centro e sul do País,
preferentemente em solos argilosos, julgando-se ser endémica da região
mediterrânica ocidental. Costumo colhê-la na Arrábida, durante o mês de Junho,
quando ela se encontra intensamente florida. Em Julho já é tarde de mais, dado
que, com o intenso calor, as flores ficam secas e adquirem cor acastanhada.
Segundo é referido em “Elementos da Flora Aromática”, de
Aloísio Costa, desta erva fortemente aromática, “foi isolada uma essência com
hidrocarbonetos terpénicos, álcoois gordos e ésteres de ácidos da mesma série,
dimetiltimo-hidroquinona, azuleno, etc.”
A macela-real é considerada uma planta estimulante, tónica e
vulnerária.
Curiosamente, os americanos consideram-na planta condimentar
(folhas esmagadas), mas não lhe atribuem usos medicinais. No entanto, na já
citada obra sobre a flora dos concelhos ocidentais do Algarve cita-se que é boa
para inchaços e feridas de pessoas e animais e, em particular, para a lavagem
dos porcos depois de capados, a fim de não infectarem; ou ainda para curar
animais empanzinados, dando-se-lhes a beber a água do respectivo cozimento.
Nenhuma das obras que consultei refere o uso da macela-real
para debelar problemas estomacais: digestões difíceis, azias, arrotos e
enfartamentos. Contudo, para estes problemas, a planta é espectacular, graças à
sua eficiência e efeito rápido. Basta mastigar uma, ou duas florinhas secas,
ensalivar bem e engolir. O sabor é desagradavelmente amargo, mas vale bem a
pena, porque é remédio santo. Quando viajamos, a minha mulher costuma trazer
sempre uma caixinha com flores secas de macela-real e até tem, frequentemente,
ajudado outras pessoas. Lembro-me de que, quando estivemos em Cuba, em 1982,
participando na inesquecível Brigada José Marti, uma das nossas jovens guias, a
Íbis, sofria imenso de problemas de estômago. Assim que a minha mulher lhe
passou a caixinha das macelas-reais, logo a moça começou a ficar aliviada. De
tal maneira ficou fã deste simples tratamento que, durante alguns anos, quando alguém
conhecido visitava Cuba, sempre era portador da mezinha para a Íbis.
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