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Ferrel, Trinta Anos Depois e Jacinto Vieira, o Militante que Não Desiste |
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Escrito por Carlos Ventura
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Quarta, 02 Julho 2008 14:25 |
in revista Natural BeijaFlor 2006 abril Ferrel, trinta anos depois Domingo 19 de Março fui, numa camioneta cheia de gente entusiástica, de
Lisboa até Ferrel, onde há trinta anos ocorreu um movimento exemplar de
levantamento da população local contra a instalação junto ao mar de uma central
nuclear. Na altura, aquele movimento foi apoiado a nível nacional e várias
pessoas que há trinta anos lá se manifestaram voltaram agora aos mesmos locais
respondendo da mesma forma à mesma pergunta: nuclear? não obrigado! Lá
estiveram dois dos três activistas que foram determinantes para que a luta
ganhasse um âmbito nacional (e algum eco internacional): Delgado Domingos,
professor do Instituto Superior Técnico, que desmontou a falácia técnica das
vantagens do nuclear e José Carlos Marques, militante ecologista. O terceiro
pilar, Afonso Cautela, desta vez ausente, foi lembrado várias vezes,
nomeadamente por Delgado Domingos, que sublinhou que foi Cautela o grande
responsável pela sua vinda a Ferrel. Sem grandes perspectivas, ele foi. E
deparou-se com uma sala cheia à espera do que o professor iria dizer. Ele não
estava acostumado a falar a ouvintes sem conhecimentos técnicos, mas lá
começou. E, relatou agora, a sintonia foi imediata. Até então não havia
esclarecimentos cabais acerca dos perigos que a central poderia trazer para as
populações, a agricultura, as pescas, o turismo, os ecossistemas... O seu saber
científico encaixou perfeitamente no bom senso e na cultura ancestral de quem o
ouvia. A partir daí o movimento foi imparável. A jornada comemorativa de agora
foi organizada pela Junta de Freguesia de Ferrel e pela Câmara Municipal de
Peniche. É significativo que estas duas estruturas autárquicas sejam hoje
presididas por dois dos que, nessa altura com menos trinta anos, estiveram
activamente na luta por Ferrel livre do nuclear... Esta região está vacinada.
Mas os mesmos argumentos para impor centrais nucleares em Portugal estão de
volta. Daí que esta jornada não tenha sido só uma comemoração, mas uma troca de
contactos e uma afirmação de que os de há trinta anos continuam prontos para
resistir de novo. Os argumentos dos pró-nuclear continuam os mesmos, mas nós
também ainda não esquecemos os nossos... e depois de Chernobyl até temos mais
alguns.
Jacinto Vieira, o militante que não desiste
Em Ferrel encontrei pessoas que não via há
muito tempo. Com José Carlos Marques almocei há um par de meses (na companhia
do Afonso Cautela), com Fernando Condesso falo com frequência. Mas revi o
Carloto (agora deputado), o Eurico Figueiredo (que foi mensageiro e leu uma
carta de Mário Soares, ao tempo primeiro ministro e que decidiu abandonar a
opção nuclear), Carlos Antunes e outros. Entre estes, sem surpresa, lá estava o
Jacinto Vieira, sempre rebarbativo (interveio no debate e lembrou o papel
determinante do Cautela nas questões ecológicas em Portugal). A sua luta
principal nos últimos anos tem sido contra os transgénicos (deu-me um exemplar
do jornal quinzenal algarvio "Costa a Costa" de 27/2/2006 com um artigo seu
intitulado "A ameaça dos transgénicos - Frente do Algarve Livre de
Transgénicos"). Há alguns anos, no Fórum Social que decorreu na Cidade Universitária,
em Lisboa, a certa altura por trás de uma tenda no relvado frente à Reitoria
ouvi uma voz que me pareceu familiar. Contornei a tenda e lá estava o Jacinto,
sentado na relva, a defender já não sei que ideias entre um grupo de jovens. Há
mais de três décadas que o vejo erguer a voz pela macrobiótica, pela ecologia,
pela agricultura biológica, contra o nuclear, contra os transgénicos e contra
alguns inimigos de estimação... Concorde-se ou não com as suas causas ou com a
maneira que tem de as defender, é admirável a sua pertinácia e a sua militância
apaixonada. Algum dia, eu sei, ele vai quebrar. Mas não vai torcer.
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